quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A VINGANÇA DE GIORDANO

Giordano Bruno
Imagem: nationalgeographic.com.es
                                                                                 Nelson  Travnik
                                                                                           nelson-travnik@hotmail.com

Recentemente o noticiário internacional destacou a descoberta de um exoplaneta na zona habitável orbitando a estrela Alpha Centauri C ou, simplesmente Próxima, nossa vizinha no espaço a “apenas” 4,22 anos-luz.
Alpha Centauri é uma estrela tripla : duas são muito brilhantes A e B e a terceira C é uma massiva anã vermelha apenas com diâmetro uma vez e meia maior que Júpiter. Com uma magnitude de +11.05 torna-se muito difícil de ser localizada. Estima-se que gasta alguns milhões de anos para completar uma volta em torno das suas companheiras A e B. Se a noticia provocou impacto nos leigos, para os astrônomos não causou nenhuma surpresa uma vez que em 3000 exoplanetas pesquisados, 68 são próximos ao tamanho da Terra e estão na zona habitável. Desde a descoberta do primeiro exoplaneta em 1990, seu número atual está próximo a 5000  e não para de crescer. Com isto já é aceito que a maioria das estrelas possuem planetas ao seu redor e, por analogia, também possuirão satélites, asteróides e cometas. Esse raciocínio leva-nos a conclusão que pode haver civilizações lá fora que já chegaram a um estágio de desenvolvimento suficiente para emitir ondas de rádio. Assim sendo, já é aceito que nos próximos 25 anos através das gigantescas antenas dos nossos radiotelescópios chegará a tão aguarda mensagem: também estamos aqui !

SOMOS  POEIRA  DE  ESTRELAS
Os cientistas concordam que somos subproduto de água, terra, luz e outros elementos gerados no interior de uma estrela: o Sol. Dez por cento do peso médio do corpo humano é composto por átomos de hidrogênio. Todo o resto é de elementos mais pesados que o hélio, justamente aqueles produzidos dentro das estrelas. A descoberta de diversas moléculas orgânicas no meio interestelar, gelo e carbono nos cometas e astros assemelhados, reforça a idéia de que o universo é um celeiro de vida. A nucleosíntese primordial e a nucleosíntese estelar produziram elementos que fazem parte dos nossos corpos. Sim, somos feitos de poeira de estrelas!


O  RENASCER  DE  UMA  IDEIA  ANTIGA
A possibilidade de existir outros mundos com formas de vida é antiga e na Grécia já se pensava nisso. A Escola de Epícuro (341 -271) ensinava que não havia nenhum obstáculo para haver infinito número de mundos parecidos com o nosso. O poeta romano Titus Lucretio (97 -55) defendia igual pensamento. No século XV o cardeal Nikolaus de Cusa sustentava  a pluralidade dos mundos habitados com anuência do Papa Eugênio IV. Com a reformulação do sistema heliocêntrico por Nicolau Copérnico (1473-1543), endossada a seguir por Galileu Galilei (1564-1642) e Johannes Kepler (1572-1630), o fato atingiu em cheio as “verdades” impostas pela Igreja. Destronar a Terra do centro do sistema solar, do universo, da criação, indo de encontro aos doutores da Igreja era inadmissível, uma heresia. O curioso é que já muito antes de Copérnico, o astrônomo grego Aristarco de Samos (310 -230)  demonstrava que a Terra e os outros planetas giravam ao redor do Sol e que o movimento das estrelas à noite era aparente, causado pela rotação da Terra. Copérnico salvou-se da Inquisição pois seu livro propondo o heliocentrismo só lhe chegou ás mãos no leito de morte. Galileu contudo não teve a mesma sorte e teve que se retratar perante o Tribunal da Santa Inquisição para  escapar da fogueira. A pena foi abrandada para prisão domiciliar em Arcetri, próximo a Florença. Foi necessário dois séculos para que a Igreja admitisse oficialmente em 1822 que a Terra girava ao redor do Sol.

GIORDANO  BRUNO ,  MÁRTIR  DA  CIÊNCIA
Um destino trágico contudo estava reservado a Giordano Bruno (1548-1600). Fascinado pela imensidão do universo que os astrônomos de sua época estavam revelando contrapondo ao universo fechado pela filosofia aristotélica defendida pela Igreja, ele opôs um universo infinito. Defensor da teoria heliocêntrica de Aristarco e Copérnico, ele chegou a admitir também a existência de outros mundos.  Em seu livro “De l’ Infinito, Universo e Mondi”, Acerca do Infinito, Universo e Mundos, ele escreveu : “há incontáveis terras orbitando em volta de seus sóis da mesma maneira que os seis planetas do nosso sistema”. Para a Igreja isso soou inadmissível pois era ir de encontro ao que ela defendia. Ademais, se existiam infinitos mundos, muitos deles habitados, como seria a “salvação” dos seus habitantes ? Uma réplica do que ocorreu aqui?  Giordano Bruno com a coragem dos heróis, enfrentou com altivez o Tribunal da Santa Inquisição não se retratando de suas convicções e o que ditava sua consciência.  Foi acusado de ser inimigo de todas as religiões, crer na existência de outros mundos e na infinidade do universo. Sofreu um processo que durou sete anos e no dia 9 de fevereiro de 1600, condenado por sua “heresia”, foi queimado vivo no Campo di Fiori em Roma tendo exclamado antes do suplício : “Minha alma subirá ao Paraíso junto com a fumaça do meu corpo”. Giordano Bruno, espírito renovador, alma límpida, apóstolo da ciência do céu, não se deixou intimidar pelas ameaças vindas de uma Igreja fechada as novas idéias do movimento renascentista e corroída por escândalos e dogmas que feriam a razão. Passados 416 anos, desde 1990 a astronomia nos vem revelando a pluralidade dos mundos em  nossa galáxia  comprovando Giordano Bruno e que a fé nunca pode estar divorciada dos conhecimentos científicos.
O autor é astrônomo no Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NOVO TELESCÓPIO AMPLIA VISÃO DO UNIVERSO

Terminou a fase de testes e agora a partir deste mês, o Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum, OAPES, órgão da Secretaria Municipal de Educação, SME, passa a contar com um novo telescópio destinado a oferecer a seus visitantes mais uma opção para observação dos astros. O novo instrumento de 11 polegadas, completamente automatizado, é americano da renomada marca Celestron.

A outra novidade do OAPES,
É o término de uma plataforma de observação, construída pela SME. O novo espaço reservado ao “Grupo dos Amigos do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum” poderá acomodar a instalação de até cinco telescópios que serão utilizados pelo Grupo para seus trabalhos e também para reforçar o atendimento público aos sábados. Foram desenhadas cinco Rosas dos Ventos para o posicionamento preciso dos instrumentos bem como embelezamento do local.

domingo, 4 de setembro de 2016

OBSERVATÓRIO FARÁ CURSO DE ASTRONOMIA

SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO – SME

OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DE PIRACICABA ELIAS SALUM – OAPES

Informação  a  imprensa

OBSERVATÓRIO  FARÁ  CURSO  DE  ASTRONOMIA

Como acontece anualmente, o Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum, OAPES, órgão da Secretaria Municipal de Educação, SME, estará realizando no próximo dia 10 o inicio de mais um “Curso de Introdução a Astronomia”, endereçado as pessoas interessadas acima de 14 anos. Estão sendo oferecidas 30 vagas e as inscrições serão feitas pessoalmente das 16 ás 17 horas no dia da abertura do curso. O curso é gratuito e será realizado no auditorium do Observatório, em cinco aulas , aos sábados, das 17 ás 19 horas. Ao final será emitido um Certificado de Participação para quem o desejar. As aulas será de ordem prática, teórica, observacional e utilizando modelos pedagógicos. Os objetivos principais visam a plena compreensão do mundo que vivemos  conhecendo o universo que nos envolve; o nascimento e expansão do universo; nascimento, vida e morte das estrelas; os grandes luminares da astronomia e ciência espacial; nossa estrela, o Sol; sistema solar e os vários tipos de instrumentos. O curso será ministrado pelo astrônomo Nelson Travnik do Observatório. O OAPES fica situado no km 3 da rodovia Fausto Santomauro que liga Piracicaba a Rio Claro.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ETA CARINAE, A MORTE ANUNCIADA DE UMA ESTRELA


A nuvem de gás e poeira que envolve o sistema binário de Eta Carina dificulta a visão, mas com os dados do Fuse foi possível identificar os sinais espectrais de duas estrelas separadas
                                                                                   Nelson Travnik
                                                                        nelson-travnik@hotmail.com


Eta Carinae, como diz o nome, situa-se na constelação da Carina e é parte da constelação do Navio, Argus, que o astrônomo francês Nicholas L. de La Caille (1713-1762) subdividiu em três constelações menores: Carina, Quilha; Popa, Puppis e Vela, Vela. Eta Carinae é um dos astros mais intrigantes já vistos no firmamento. Um mistério que aos poucos vai sendo desvendado.

Com brilho equivalente a 5 milhões de sóis, é a maior, a mais luminosa e a que emite mais energia na galáxia. O que mais intrigava os astrônomos é que a massa da estrela contrariava o chamado Limite de Eddington, proposta pelo astrofísico inglês Arthur Stanley Eddington (1882-1944) no qual estabelecendo o limite para uma estrela massiva de até 160 sóis, a gigante Eta Carinae não deveria existir pelo fato de que, em essência, a pressão da radiação não deve exceder a gravidade. Em 1826 a curiosidade em torno de Eta Carinae começou quando o naturalista inglês William J. Burschell observando-a de São Paulo, notou que a estrela classificada como de magnitude 4 brilhava como uma de magnitude 2. A atenção dos astrônomos aumentou quando o estudioso de Eta Carinae, Kris Davidson, estimou que a explosão dessa estrela em 1843 havia lançado ao espaço uma quantidade de matéria equivalente a duas massas solares. O enigma aumentou ainda mais quando em 1850, com nova explosão, ela atingiu o brilho de Sirius, a estrela mais brilhante do céu. Nessa explosão alguns astrônomos calcularam que Eta Carinae se livrou de uma só tacada, algo ao redor de 10 estrelas como o nosso Sol. Depois dessa ‘explosão’ de brilho, ela desapareceu dentro de um casulo de gás e poeira como a vemos hoje estimado em 9 anos-luz ou, 7,1 trilhões de quilômetros e que é conhecida como Nebulosa Eta Carinae ou NGC 3372. Com isso ela não pode ser vista diretamente porque sua luz espalhada pelo casulo denominado Homúnculo, forma uma borrão impenetrável aos instrumentos. Pesquisas recentes mostram que o gás e poeira à sua volta está se dissipando e ela talvez possa ser vista novamente no próximo século.

DECIFRANDO  O  ENIGMA
Eta Carinae está situada a 7.500 anos-luz e foi catalogada pela primeira vez em 1677 pelo astrônomo inglês Edmond Halley (1656-1742). Seu tamanho gigantesco atualmente calculado em 126 massas solares, é raríssimo, contrariava o Limite de Eddington e não explicava os grandes saltos de brilho. Isso foi solucionado pelo astrofísico brasileiro Augusto Damineli do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas do IAG,USP, estudando o estranho comportamento da estrela. Uma hipótese apresentada por ele em 1977, sugeria que Eta Carinae era uma estrela dupla numa órbita excêntrica quando elas na aproximação máxima (periastro) estariam separadas  por menos de 200 milhões de quilômetros, distância relativamente pequena, pouco mais da distância da Terra ao Sol. Isto resolvia as restrições impostas pelo Limite de Eddington ao dividir a massa mas restava  a explicação para os saltos e diminuição do brilho. Damineli estimou o período da órbita em 5,53 anos ou, 2020 dias e que havia uma queda de brilho chamado ‘apagão’ quando uma estrela passava à frente da outra com relação a linha de visão que liga a Terra a Eta Carinae e isto provocava outrossim uma súbita queda na emissão de raios X. Contudo era necessário a comprovação da hipótese, da parceria de Eta Carinae A e Eta Carinae B e essa veio através do satélite Fuse , sigla em inglês de “Explorador Espectroscópico do Ultravioleta Distante” da NASA. As medidas no ultravioleta permitiram identificar a presença de Eta Carinae B, comprovando também que a estrela no periastro entra dentro do vento estelar de Eta Carinae A. Vento estelar são chuvas de partículas altamente energéticas  produzidas e ejetadas pelas estrelas. O fenômeno conhecido como ‘apagão’ ocorre portanto quando a componente B com massa calculada de 36 vezes a do Sol e mais quente, penetra no periastro no vento estelar  da principal A com 90 massas solares, maior e mais fria. O resultado é uma espécie de eclipse estelar de alta energia que faz com que certas faixas do espectro eletromagnético em especial os raios X, sejam bloqueados. Para monitorar o comportamento de ambas estrelas, o astrônomo amador de Campinas,SP, Rogério Marcon, através de um espectroscópio por ele construído, está empenhado na imagem diária do sistema que irá possibilitar flagrar o inicio, o meio e o fim do ‘apagão’.


MORTE  ANUNCIADA
Resta saber quando irá ocorrer a terceira que poderá ser a última explosão. Há 7.500 anos-luz ela já poderá ter ocorrido e portanto está a caminho um tsunami cósmico. Pesquisas mostram que Eta Carinae é um barril de pólvora estelar com o pavio quase no fim. A teoria que conhecemos da evolução estelar nos mostra que o final da vida de uma estrela de grande massa é curta cujo final é a transformação em uma supernova. Explosões dessas estrelas são freqüentes e registradas em outras galáxias a muitos milhões, bilhões de anos-luz. O caso contudo de Eta Carinae face ao seu gigantismo será ainda maior, uma hipernova. Por uma fração de segundo, estrelas hipernovas emitem tanta luz como a galáxia inteira! No caso de Eta Carinae, em sua explosão final – quando o combustível nuclear não bastar para fornecer energia capaz de suportar a contração gravitacional – será o espetáculo mais grandioso da história da nossa galáxia. Nosso céu será inundado por uma luz tão forte que fará a noite virar dia durante um mês ! Para nós do hemisfério sul, isso acontecerá nas estações do outono e inverno.  Essa explosão irá significar que a energia liberada – a terrível radiação gama – será trilhões de vezes mais intensa. Mesmo distante 7.500 anos-luz, essa radiação direcionada à Terra, varrerá toda a vida do planeta. Um funeral luminoso e segundo alguns pesquisadores uma dessas explosões pode ter atingido a Terra no final do período Ordoviciano, há 450 milhões de anos e que tenha conseguido exterminar mais de 80% de todas as espécies viventes aquela época. Contudo para nossa felicidade, o grupo do astrônomo Kris Davidson descobriu recentemente que o eixo de rotação de Eta Carinae A não está em nossa direção e assim como os raios gama saem em feixe estreito na direção do eixo de rotação, ufa ! estamos salvos !

Nelson Travnik é astrônomo em Campinas, SP e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.c
  


sábado, 21 de maio de 2016

UMA VIAGEM AO CRUZEIRO DO SUL

UMA CONSTELAÇÃO COM MUITAS HISTÓRIAS


Cruzeiro do Sul
Imagem: Mundo Educação


Nelson Travnik
nelson-travnik@hotmail.com

Com apenas 68 graus quadrados, ela é a menor de todas as constelações, mas uma das mais célebres que domina as noites de outono.

Até agora os historiadores não chegaram a um acordo de quem a viu pela primeira vez. Sabe-se que era vista pelos habitantes do Alto Egito (Tebas) há milênios. As principais estrelas estão catalogadas no Almagesto de Claudio Ptolomeu (85 -165 a.C.) na constelação do Centauro. Muitos navegadores a viram mas não a batizaram como Cruzeiro. É o caso dos navegadores portugueses João de Lisboa e Pero Anes que em 1506 fizeram observações do Cruzeiro em Cochim, na latitude de 10 graus. A designação tornou-se universal pelo astrônomo Johannes Bayer (1572-1625) em sua célebre obra Uranometria, atlas celeste publicado em 1603 e autor do primeiro mapa das novas constelações situadas ao redor do pólo sul celeste. Mais tarde em 1679, viu-se classificada como tal pelo astrônomo Agostinho Royer. Para alguns, foi o famoso Mestre João, astrônomo e médico da comitiva de Pedro Álvares Cabral que a viu e registrou pela primeira vez em carta enviada ao rei de Portugal Dom Manuel em 1500. Nela consta “(...) estas estrelas principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro (a Ursa Maior) (...)”.

PRINCIPAIS ESTRELAS DA CONSTELAÇÃO


A constelação do Cruzeiro do Sul, conhecida entre os astrônomos de todo o mundo por “Crux Australis”, possui estrelas notáveis pelo brilho de suas componentes e é facilmente identificável nesta época do ano. A estrela mais brilhante Alfa Crucis ou Acrux, popularmente conhecida como Estrela de Magalhães, é uma belíssima estrela azul que é tripla, distante 200 anos-luz e que representa o Estado de São Paulo no pavilhão nacional. A segunda mais brilhante é Beta Crucis ou, Becrux também conhecida como Mimosa e que representa o Estado do Rio de Janeiro. Ela é 5800 vezes mais luminosa que o Sol! Próximo a ela existe uma estrela de fraca luminosidade, a Kappa Crucis onde situa-se um dos mais belos aglomerados abertos de estrelas chamado por J. Herschel de “Caixa de Jóias” formado por estrelas de diferentes cores e que se encontra a 7000 anos-luz! Retornando as estrelas do Cruzeiro, a terceira mais brilhante é Gama Crucis ou Gacrux que é uma gigante vermelha, dupla, conhecida como Rubídea e que representa o Estado da Bahia. É cerca de 900 vezes mais luminosa que o Sol e distante 500 anos-luz. A seguir vemos a estrela Delta Crucis, conhecida como Pálida. É também uma estrela gigante, 1900 vezes mais luminosa que o Sol e que representa o Estado de Minas Gerais em nosso pendão. Um dos aspectos que desperta atenção nessa constelação, é uma imensa região escura conhecida como “Saco de Carvão”. Em noites limpas, sem luar e isenta da iluminação das cidades, pode-se notar uma ausência quase total de estrelas entre Mimosa e a estrela de Magalhães. Isto se explica porque naquela região há uma colossal nuvem de gás interestelar que impossibilita a passagem de luz das estrelas de fundo.

O Cruzeiro do Sul está indelevelmente ligado ao descobrimento do Brasil e é detentor de uma tradição histórica, poética e religiosa. Nós brasileiros fizemos dele patrimônio nacional.

O autor é astrônomo do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum/SP, e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.


NOVA DENOMINAÇÃO DO OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DE PIRACICABA

OAP Elias Salum
Às instituições astronômicas, clubes e associações da Astronomia,
 Através do Projeto de Lei nº 235/15, a Câmara de Vereadores de Piracicaba/SP, atendendo solicitação do astrônomo Nelson Travnik, com endosso da Secretaria Municipal de Educação, aprovou com justificativa do vereador Laercio Trevisan, a alteração do nome do Observatório para: Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum. O homenageado nasceu em 20/08/1929 e faleceu em 16/08/2015. Fundador do Observatório e da Associação dos Astrônomos Amadores de Piracicaba, era professor universitário, escritor, rádio amador e detentor de inúmeras medalhas de mérito e condecorações.
No Observatório também se acham homenageadas as seguintes personalidades:

Rubens de Azevedo (1921-2008): astrônomo amador, escritor, jornalista, artista plástico e poeta.
Homenagem: Pavilhão de Observações Rubens de Azevedo
Sergio Menge de Freitas (1932-1998): astrônomo da UFRJ – Observatório do Valongo, astrônomo do Planetário da Cidade do Rio de Janeiro,  pianista e  escritor.
Homenagem: Biblioteca Sergio Menge de Freitas

Rodolpho Caniato (1929 -   ): físico, astrônomo, escritor, prof. Universitário, cantor lírico.
Homenagem: Auditorium Rodolpho Caniato

João Octavio Nebias: comerciante, astrônomo amador, fundador do Observatório Astronômico Bandeirante, São Paulo/SP, em 23/02/1956.

Homenagem: Refrator Steinheil 175/2625mm, João Octavio Nebias

quinta-feira, 21 de abril de 2016

ESPETÁCULO NO CÉU: MERCÚRIO FICARÁ ALINHADO ENTRE A TERRA E O SOL


Nelson Travnik*

O fenômeno denominado trânsito será visto integralmente no Brasil na segunda-feira dia 9 de maio. Não será visível a olho nu dado o pequeno tamanho do planeta que aparece sobre o Sol com um diâmetro de apenas 1/150 do diâmetro solar. O próximo trânsito somente ocorrerá em 11/11/2019. O primeiro a predizer o trânsito de Mercúrio foi o astrônomo alemão Johannes Kepler que o anunciou para o dia 7/11/1631 e foi observado por Pierre Gassendi. Antes disso não há nenhuma referência a observação de Mercúrio pelo disco solar, pois ele só é visível através do telescópio que somente foi introduzido por Galileu em 1610. No passado vários astrônomos entre os quais Newcomb e Le Verrier, descobriram anomalias no periélio de Mercúrio que fugiam a lei da gravitação de I. Newton. Para explicar isso, chegou-se até a possibilidade da existência de um planeta entre o Sol e Mercúrio que até recebeu um nome: Vulcano. O chamado avanço do periélio de Mercúrio só foi solucionado pelo alemão A. Einstein em sua Teoria da Relatividade.





Há de 13 a 14 trânsitos em um século com intervalos irregulares que podem ser de três, sete, dez e treze anos. Se Mercúrio e a Terra orbitassem o Sol num mesmo plano, o planeta passaria sobre o disco solar a cada conjunção inferior ou seja: três vezes por ano em média. Isso não acontece porque a orbita de Mercúrio é levemente inclinada de 7° 00” em relação a eclíptica. A condição necessária para que ocorra um trânsito é similar a necessária para um eclipse solar ou lunar isto é, a Terra deve estar próxima a linha dos nodos da órbita do planeta. Como os nodos do planeta estão nas latitudes 227° e 47° e são cruzados pela Terra próximo aos dias 7 de maio e 9 de novembro, os trânsitos somente podem ocorrer próximos a esses dias. A diferença principal é que nos trânsitos de maio, Mercúrio está mais próximo da Terra e seu semi-diâmetro é um pouco maior que os trânsitos de novembro. Devido a excentricidade da órbita do planeta, a mais forte do sistema solar, 0,205,  os trânsitos de novembro são duas vezes mais numerosos que os de maio. A velocidade de Mercúrio no periélio é de 59 km/s, bem mais rápida do que no afélio, 39 km/s. No trânsito deste ano, Mercúrio estará a uma distância de 83.511.000 km da Terra e terá um diâmetro aparente de 12.1” .

OBSERVAÇÃO
O trânsito deste ano terá duração de 7,5 horas, maior, portanto, que os de 2003 e 2006. Além da observação visual, a fotografia e a filmagem é a melhor forma de cronometrar as fases do fenômeno. O emprego também de imagens em H-Alpha será muito interessante. Os instantes principais para o trânsito do próximo dia 9 são os seguintes:

Circunstâncias do Trânsito de Mercúrio pelo disco solar em 09 de maio de 2016
Evento
Hora
Descrição
1º contato externo
08:12
Momento em que o disco do planeta toca externamente o bordo do Sol.
2º contato interno
08:15
Momento em que o disco do planeta já passou pelo bordo do Sol
Instante Máximo
11:57
Meio do trânsito.
3º contato interno
15:39
Momento em que o disco do planeta toca o bordo  do Sol internamente
4º contato externo
15:42
Momento em que todo o disco do planeta cruza pelo bordo do Sol


 

A precisão em segundos dos contatos depende naturalmente da posição do observador no País. Os primeiro e quarto contatos são muito difíceis de se determinar por observação visual. Já nos segundo e quarto contatos, embora haja bom contraste entre o planeta e o fundo (fotosfera), a tomada dos tempos se torna imprecisa devido ao efeito “Black Drop”. É um efeito fisiológico que persiste sempre após a entrada ou antes da saída do planeta do disco solar. Nos trânsitos é possível ainda calcular o diâmetro do planeta a partir da medição exata do tempo que transcorre entre a entrada e a saída do disco solar.

REFERÊNCIAS:
Anuário Astronômico Catarinense, 2016, A. Amorim, Membro da SAF,REA,AAVSO,NEOA
Astronomie Populaire, Camille Flammarion
Observatório Astronômico Flammarion/MG, trânsitos de 1960,1970 e 1973, N. Travnik
Observatório Astronômico Anwar Damha/SP, trânsito de 2003, N. Travnik
L’ Astronomie, avril 2016, Société Astronomique de France /SAF

*Diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba/SP e Membro Titular
da Sociedade Astronômica da França, SAF.