domingo, 19 de novembro de 2017

NOSSA BANDEIRA: NOSSO MAIOR ORGULHO


Nelson Travnik

Nesse domingo estamos comemorando o Dia da Bandeira. A Bandeira do Brasil é uma das mais belas e sugestivas do mundo e também a única que representa grande parte do firmamento que envolve a Terra. É a mais completa ilustração já imaginada para uma bandeira nacional.
A data de 19 de novembro foi instituída através de decreto em 1889. A bandeira que conhecemos hoje é uma versão moderna da utilizada quando o Brasil era um Império. As cores representavam a família real: o verde em homenagem a D. Pedro II e o amarelo a imperatriz Leopoldina. A nova bandeira foi estabelecida pelo decreto nº 4 de 19/11/1889, redigido por Rui Barbosa e assinado pelo Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provisório, Quintino Bocaiúva, Aristides da Silveira Lobo, M. Ferraz de Campos Sales, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Eduardo Wandenkolk e Rui Barbosa que manteve as cores originais, mas a simbologia ganhou outros significados: o verde das matas, o amarelo das riquezas, o azul do céu e o branco da paz.

O hasteamento da Bandeira ao som do Hino Nacional é sempre um momento de muita emoção, patriotismo e que nos remete ao passado, ao presente e ao futuro, cientes de que, em momento algum nos curvaremos a quaisquer tentativas de adulteração de suas cores. Algumas escolas mantém cerimônia de hasteamento. 

UM CÉU DE POLEMICAS

O céu estampado na bandeira corresponde a uma visão da esfera celeste inclinada segundo a latitude do Rio de Janeiro, local da Proclamação da República, ás 08h30 do dia 15/11/1889.  Uma consulta a uma simples carta do céu bem como, se nessa hora acontecesse no Rio um eclipse total do Sol, mostraria que o céu da bandeira está às avessas. A posição das estrelas não coincide em suas posições e magnitudes aparentes. O erro mais grosseiro é a do Cruzeiro do Sul onde a posição da estrela épsilon, conhecida.





 como “intrometida” e que representa o Estado do Espírito Santo, está invertida bem como, entre outras, a constelação do Escorpião. Ninguém observa esse aspecto do céu e nunca o observou. Cumpre lembrar que as bandeiras da Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Samoa Ocidental também ostentam a constelação do Cruzeiro do Sul, contudo, tal como a vemos no céu. A reação não se fez esperar e a questão foi debatida nos jornais, na tribuna do Congresso e até o povo foi instado a opinar. Mas tudo ficou esquecido. Os legisladores na ocasião procuraram uma justificativa para amenizar e convencer os leigos que aquele céu visto ás 08h30 no dia 15 de novembro, em pleno dia, estaria refletido nas águas da baia da Guanabara!!!  Outros argumentaram que era o céu visto por um observador situado fora da esfera celeste o que implicava ser um astronauta quando tal não era ainda sequer cogitado.  Aliás, é o que mais tarde foi inserido na Lei nº 5.443 de 28/05/1968. Art. 3º, § 1º, para justificar o erro.  

O QUE FAZER?
O projeto poderia ser realizado corretamente com a tarefa a cargo dos astrônomos do Observatório Nacional que estavam ali pertinho, no bairro de São Cristovão. Porque isso não foi feito? Talvez por puro revanchismo. Os republicanos sabiam que o Imperador era astrônomo amador, amava Astronomia, tinha um pequeno observatório no telhado do Palácio Imperial de São Cristovão, hoje Museu Nacional, frequentava o então Imperial Observatório, custeava expedições científicas para observação de raros fenômenos celestes, contratava renomados astrônomos europeus para aqui trabalhar e era Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.  Mais tarde foi imortalizado no asteróide “Brasilia” por A. Charlois (1864-1910) do Observatório de Nice, França. Reproduzindo o céu de forma correta mostraria o céu tal qual o vemos e que pode ser conferido no dia 20 de maio ás 20h00 pois a situação se repete com o Cruzeiro do Sul alto no céu no meridiano do Rio de Janeiro. A faixa ORDEM E PROGRESSO, que representa a Eclíptica estaria, também, disposta de forma mais correta no campo estelar com a palavra PROGRESSO na porção ascendente da faixa. Todos os erros astronômicos constam de dois livros: “A Bandeira Nacional” de Eduardo Prado publicado nem 1903 e depois pelo IBGE e “A Bandeira Nacional” de Rubens de Azevedo publicado em 1988 pela Edições Tukano, Artes & Literatura. A mudança seria simples, poucas pessoas notariam a diferença e o mais importante: mostraria o céu de acordo com o que vemos. Mas após décadas, fica difícil proceder modificações agora que todos estão solidários com a Bandeira. O mais sensato é, portanto, deixá-la como está e considerar então que tudo é simbólico e as estrelas nas constelações estão como se fossem atiradas ao acaso. “Cientes de que nada é perfeito, orgulhamo-nos de que a nossa Bandeira contenha lineamentos fundamentais de cultura humana, segmentos de nossa história e projetos permanentes de realizações futuras. A Bandeira ai está mais gloriosa que nunca “. (Raimundo O. Coimbra).

VOCÊ SABIA?
·       A bandeira pode ser hasteada e arriada a qualquer hora do dia ou da noite, mas normalmente isso é feito das 08h00 às 18h00. Apenas no Dia da Bandeira o hasteamento é realizado às 12h00 em solenidade especial.
·       A bandeira pode permanecer hasteada durante a noite, porém deve estar iluminada.
·       Quando várias bandeiras são hasteadas ou arriadas simultaneamente, a bandeira brasileira é a primeira a atingir o topo do mastro e a última a descer.
·       Quando o presidente do Brasil morre ou alguém muito importante e se decreta luto oficial, a bandeira deve ser hasteada a meio mastro.
·       Quando uma bandeira fica velha, ela é guardada até o dia 19 de novembro, quando é então queimada em uma cerimônia.
·       A Bandeira do Brasil é uma das poucas a não possuir as cores preta e vermelha, que são associadas a batalhas e sangue.


Nelson Travnik é astrônomo e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

OBSERVATÓRIO PARTICIPARÁ DO 20º ENCONTRO NACIONAL DE ASTRONOMIA

Logo do evento


Tendo como palco a cidade do Rio de Janeiro, terá inicio nos próximos dias 2 a 5, o 20º Encontro Nacional de Astronomia, ENAST, reunindo alguns dos maiores nomes desta ciência tanto aficionados como profissionais. O conclave também estará aberto a participação nas palestras e oficinas de estudantes, educadores e entusiastas. O Encontro está sendo organizado pelo Museu do Universo , órgão da Secretaria de Ciência e Tecnologia da Prefeitura Municipal e com o apoio da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, OBAA, do Centro de Apoio a Pesquisa, CAPES e outros órgãos ligados a difusão e ensino da ciência.  Todas as atividades serão realizadas nas dependências do Museu do Universo situado na Gávea.  O Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum, órgão da Secretaria Municipal de Educação, estará sendo representado pelo astrônomo Nelson Travnik  que estará enfatizando o retorno urgente das observações lunares que estão sendo solicitadas pelas agencias espaciais dos Estados Unidos, Rússia, China e Europa. A Lua sofre   impactos  de meteoróides e bombardeio constante de radiações, algumas letais vindas de diferentes pontos do Universo.  Esse monitoramento é de vital importância na construção e segurança das bases lunares que serão construídas por essas agencias espaciais.  O astrônomo acumula grande experiência nesse e outros trabalhos feitos a época das missões Apollo em que foi observador credenciado pela NASA-JPL-SMITHSONIAN INSTITUTION. Essas bases funcionarão como centros de pesquisa e apoio as futuras missões tripuladas ao planeta Marte. O astrônomo também estará levando para o ENAST, as atividades do Observatório na área do Ensino, que atualmente é considerada referência no Estado de São Paulo.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

GEOFÍSICA: CRESCE A AGRESSIVIDADE DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

                                          Imagem: Pensamento Verde
                                                                              


  Nelson  Travnik
  nelson-travnik@hotmail.com

 Será que o clima está piorando ? O que significa tantas catástrofes juntas ? Será que a Mãe Natureza está perdendo a paciência ? Será que nós como espécie dominante poderemos acabar um dia ? Será que apesar de tanta tecnologia seremos capazes de sobreviver até mesmo em condições extremas como as que aconteceram nas grandes glaciações ? Não se pode negar que o planeta vive um tempo de catástrofes : furacões, ciclones, tempestade tropicais mais intensas (a Harvey e a Irma nos EEUU é um exemplo disso), tremores onde não haviam e secas severas.
A resposta é que essas mudanças radicais sempre aconteceram e que por vezes a continuidade da vida chegou a ser ameaçada. Muito do que acontece são fenômenos naturais apesar da agressividade. Acontece que a noção do tempo dos humanos é bastante diferente do tempo da Terra e por isso é comum uma ou outra pessoa apelar até mesmo na possibilidade do ‘fim dos tempos’ estar próximo quando um grande desastre natural ocorre.  Um comportamento presente em todas as culturas.

Há pelo menos 10.000 anos, vivemos hoje uma era de excepcional estabilidade no que diz respeito a última era glacial. Existem contudo evidências comprovadas geologicamente que o nosso clima não tem a estabilidade que conhecemos. Elas provam que por varias vezes nosso planeta esteve coberto de gelo e neve até a linha do equador e, por outro lado, as regiões próximas aos polos tinham clima ameno com vegetação típica dos trópicos  e onde circulavam mamíferos e outras muitas espécies. Os cientistas concordam que há 580 milhões de anos aconteceu uma gigantesca glaciação e que os oceanos congelaram levando a extinção de 99% da vida no planeta.

 O mais espantoso é que a Terra submetida a temperaturas tão drásticas, sugere que a vida é muito mais robusta que pensávamos antes e que o clima da Terra é muito menos estável do que os cientistas supunham. O fato é que após o fim da glaciação aconteceu uma explosão da vida e isso permitiu a evolução dos seres humanos a partir de 2,5 milhões de anos. Outra grande glaciação climática aconteceu há 65 milhões de anos quando um asteróide de 10 km de diâmetro atingiu a Terra na baia de Yucatán no México, provocando mudanças drásticas no clima e levando a extinção de 80% da vida na Terra, incluindo os dinossauros. É licito lembrar também as pequenas glaciações como a ultima que assolou a Europa de 1600 a 1800 quando os rios congelaram. Estudos mostraram que a Pequena Era Glacial coincidiu com um período extenso da mínima atividade solar conhecida como mínimo de Maunder com um período quase nulo de atividade . É sabido que essa atividade está ligada ao numero de manchas solares que apresenta variações em um período de 11 anos. Isso pode ser comprovado  a partir dos anéis  de crescimento das árvores que registram variações térmicas com maior concentração do carbono 14, a forma não estável desse elemento associado a mínimas solares. Assim, tudo que acontece no Sol se reflete na Terra.

Os oceanos são atores essenciais da evolução do clima. Os indicadores do aquecimento global mostram que vão muito além do Protocolo de Kyoto. São assustadores. Na medida em que o século avança, as temperaturas podem subir 3º C até 2100.   Alaska e Sibéria registram as maiores taxas de aquecimento do planeta. O derretimento de gelo na Antártida e na Groelândia é produto do aquecimento global . Com o gradual degelo das calotas polares, o nível do mar está aumentando   e significará que cidades costeiras como Santos serão invadidas pelo mar e 200 milhões de pessoas terão que abandonar suas moradias. Recentemente habitantes de uma das  ilhas da Indonésia tiveram que abandonar a mesma e mesmo aqui em algumas costas do Brasil o mar já avançou  obrigando os moradores a abandonarem suas casas. . O aquecimento apresentando por um Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas IPCC e da ONU, apontam que o derretimento das geleiras irá provocar ressacas, deslizamentos, inundações, falta de água potável, desaparecimento de uma serie de espécies, pobreza crescente e um êxodo de dezenas de milhões de “refugiados do clima”. O aquecimento já está derretendo as geleiras dos Andes e ameaça a Floresta Amazônica. Também o degelo das geleiras glaciares do Kilimanjaro na Tânzania é uma realidade ou seja, o monte perdeu 80% da sua neve e se continuar nesse ritmo desaparecerá em 2021. O monte tinha uma área de mais de 12 km2 coberto de gelo e hoje não chega a 3 km2. Uma grave ameaça para o abastecimento hídrico da região com a redução do caudal dos rios que descem a partir dos gelos. Nesse cenário assustador, as nações mais próximas aos pólos, Rússia e Canadá por exemplo, devem ser brevemente beneficiadas. Pesquisas assinalam que o oceanos estão aquecendo 50% a mais do que o previsto. O grande vilão, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, não é provocada como alguns pensam apenas pelo homem. Um vulcão ativo também contribui para isso. Com o advento da era industrial, os climatologistas começaram a apelar para a emissão desenfreada do dióxido de carbono que é o gás que mais influencia as temperaturas da superfície terrestre. Assim surgiu o indesejável efeito estufa. E vale aqui recordar sempre as palavras do Chefe Seatle, índio americano do século passado :” o que acontecer com a Terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não trançou o tecido da vida ; ele é simplesmente um de seus fios ; Tudo que fizer ao tecido, fará a si mesmo”. Outrossim,  os motivos para essas mudanças climáticas recaem também na inclinação do eixo de rotação da Terra.  Apenas 5% de variação para mais ou para menos é capaz de transformar o planeta em um deserto ou uma bola de neve. Urge não pensar apenas em nossas necessidades mas de todo o sistema Gaia, como a nossa grande e única Casa Comum.  


Nelson Travnik é astrônomo , Membro Titular da Sociedade Astronômica da França e Membro Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. 

sábado, 30 de setembro de 2017

A MALDIÇÃO DOS COMETAS

Nelson Travnik
Acostumados a regularidade dos movimentos dos astros, nossos antepassados não podiam deixar de surpreender-se com a passagem inesperada de uma bola luminescente com uma cauda luminosa riscando o céu.
Presentes em todas as culturas, a história dessas “estrelas de cauda” é pontilhada de maus agouros. Os povos da antigüidade quando observavam um cometa eram possuídos pelo pavor. Eles surgiam de repente, sem nenhum aviso, de qualquer ponto do céu quebrando assim a harmonia da esfera celeste. Esse fenômeno social, ligando a figura dos cometas a presságios funestos, aparece em todas as culturas formadoras da civilização ocidental. Os babilônios os viam como barbas celeste, os gregos com cabelos esvoaçantes e os árabes como espadas flamejantes. Na Idade Média eram também encarados como espadas, adagas, barbas, cabelos eriçados ou crucifixos voadores.
Parece que os romanos acreditavam seriamente que o grande cometa de 34 a.C., ano da morte de César, fosse a alma do ditador deixando a Terra. Em abril de 1066, o cometa Halley apareceu no momento em que Guilherme, o Conquistador, invadia a Inglaterra. Os cronistas da época são unânimes: os normandos guiados por um cometa invadem a Inglaterra! Os ingleses são efetivamente derrotados na batalha de Hastings e Mathilde, esposa de Guilherme representa a aparição do cometa na celebre tapeçaria de Bayeux. O mesmo cometa Halley surge na primavera de 1456, justamente à época da guerra dos turcos e cristãos dirigida por Maomé e o papa Calisto III. Os cristãos vêem nele um alfanje e os muçulmanos uma cruz. O papa ordena o repicar dos sinos, convida os fiéis a fazerem preces e excomunga o cometa. Em 1519 no México, um cometa apareceu no céu provocando grande temor e Montezuma II que mandou castigar seus astrônomos sacerdotes por não o terem previsto. Os incas no Peru encaravam os cometas como avisos de fúria do deus-sol INTI e supõe-se que para acalmá-lo foram realizados sacrifícios de crianças. O famoso cirurgião Ambroise Paré em seu livro ‘Monstros Celestes’ escreveu que o cometa de 1528 era tão horrível e espantoso que algumas pessoas morreram de medo, outros caíram doentes e era enviado pelos anjos para advertir-nos do pecado. Em 1577 a aparição de um cometa teria envenenado as fontes com seus gases e muita gente e o gado haviam morrido. Na Inglaterra a rainha Elizabeth I foi proibida de olhar o cometa.
Em 1582 um cometa passou sobre a Dinamarca e segundo alguns relatos engendrou monstros horríveis e os que viram foram denominados “os filhos do cometa” e recusados de receber o batismo pelos padres. Um outro cometa, o de 1614, foi visto em Castela com chifres e quatro letras enigmáticas. Em 1618 um cometa gigante teria provocado a terrível peste desse ano. A chegada de um cometa em 1667 constituiu uma ameaça pessoal a Afonso VI, rei de
Portugal que, ao vê-lo, foi para o terraço e descompõe o astro ameaçando-o
com uma pistola! Os cometas parecem ter também exercido um papel de
importância na vida de Napoleão Bonaparte. Um cometa apareceu a olho nu no
dia do seu nascimento em 15/08/1769 e um outro foi visível no dia de sua morte em
05/05/1821.



Em 1910 com a astronomia a ser mais divulgada, a grande aparição do cometa Halley foi marcada por episódios desconcertantes. Nos EEUU, em Oklahoma,
autoridades policiais chegaram no exato momento em que um grupo de fanáticos da seita ‘Select Followers’ iam sacrificar uma jovem para livrar a Terra da ira do cometa. Em muitas cidades, procissões e filas imensas se sucediam
nos confessionários levando os padres a exaustão enquanto na Hungria um cidadão se suicida. O pânico se apodera pelas previsões de que a Terra mergulhada na cauda do cometa seria envenenada uma vez que além de
outros gases presentes na cauda, havia sido detectado o cianogênio, o gás mais mortal que conhecemos. O curioso é que poucos sabiam que nosso planeta em duas ocasiões, 1819 e 1861, já havia atravessado a cauda de um
cometa sem ser molestada. Apesar dos conhecimentos astronômicos atuais, em plena Era Espacial, a superstição e a imaginação popular ainda encontram lugar atribuindo aos cometas sinal de alguma catástrofe eminente ou um aviso
do céu para a vinda de um novo líder espiritual. Em 1970 durante o conflito árabe-israelense, o cometa Bennett causou pânico em uma aldeia árabe cuja população chegou a tomá-lo por um artefato de guerra judeu! Em março de
1997 em San Diego, California, EEUU, 39 pessoas membros da seita ‘Heavens Gate’ se suicidaram na certeza de encontrar um UFO que vinha atrás do cometa Hale Bopp e que os levariam para uma civilização superior à da Terra.
Esses episódios recentes nos levam a acreditar que ainda irão acontecer bizarros acontecimentos ligados a aparição desses astros que nos encantam
sempre com suas aparições.

Nelson Travnik é astrônomo e Membro Titular da Sociedade Astronômica da
França.

sábado, 19 de agosto de 2017

O GELO QUE VEIO DO ESPAÇO

Imagem apenas ilustrativa
Fonte: google imagens

                                                                                Nelson  Travnik
                                                                                              nelson-travnik@hotmail.com

Enormes pedras de gelo caem em Campinas e Itapira,SP, provocando estragos e sustos. Pelas suas proporções, evento ainda é um mistério.

É como se poderia chamar um fato insólito, único talvez no mundo, acontecido em Campinas e Itapira, SP, na manhã de 11 de julho de 1997. Um bloco de gelo pesando entre 200 a 300 kg caiu do espaço em um prédio da Montadora Mercedes Benz no Distrito Industrial, próximo a Rodovia Santos Dumont, causando um rombo de 1,5 X 2,0 metros em telha de amianto com 1 cm de espessura, estilhaçando e amassando  uma porta de aço. Isso ocorreu com o céu completamente claro, típico de inverno, sem nuvens. As hipóteses de formação de bloco de gelo pela atmosfera em estrutura de aeronave voando acima de 6.000 metros de altitude foram descartadas por se tratar de uma formação com peso totalmente fora dos padrões conhecidos. Alguns pedaços recolhidos foram conservados em um freezer e enviados a UNICAMP.

EM  ITAPIRA

Em 18 de julho, uma semana mais tarde, outro bloco de gelo estimado em 50/60 kg caiu no Sítio São Luiz, a 2 km ao sul da cidade de Itapira,SP, chegando a abrir um buraco de 25 centímetros de profundidade. A exemplo de Campinas, o céu estava completamente claro. As coordenadas dos dois locais e o ângulo de choque aproximadamente 30 graus no sentido leste-oeste verdadeiro, mostram uma origem comum. Segundo testemunhas, o bloco de gelo caiu numa velocidade extremamente alta causando ruído semelhante ao de um avião a jato. Felizmente 0,8 kg foram guardados em um saco plástico e conservados em um freezer para estudos na Casa de Agricultura de Itapira e posteriormente enviados a UNICAMP.

Pesquisadores nas áreas de meteorologia e astronomia foram unânimes em dizer que desconheciam até aquele momento esse tipo de fenômeno. As análises químicas feitas na UNICAMP – CEPAGRI – CENTRAL ANALÍTICA – INSTITUTO DE QUÍMICA, no CENA – USP de Piracicaba e posteriormente no prestigioso Sandia National Laboratory, EEUU, não acusaram nenhum traço de insetos e resíduos de vegetação que indicassem contaminação  terrestre. Convidado na ocasião como especialista na área de cometas, tendo já publicado um livro sobre o assunto, desde o inicio, examinando o material, optei serem os mesmos pedaços de um cometa, um ‘hidrometeorito cometário’, uma vez que o percentual de gelo nesses astros é muito grande   e que vez por outra ocorre o esfacelamento do núcleo no espaço provocado pela fraca coesão dos seus componentes submetidos a temperaturas elevadas ao se aproximar do Sol e efeitos gravitacionais. Minha opinião partilhada por alguns colegas desta área, encontrou respaldo logo a seguir com a hipótese do físico Louis A. Frank da Universidade de Iowa,EEUU, segundo o qual, milhares de pedaços de gelo bombardeiam a Terra, quebrando-se em pedaços  na alta atmosfera onde o gelo desintegra-se e se mistura as nuvens e cai em forma de chuva. A hipótese do físico americano não levada a serio pelos cientistas, viu-se comprovada posteriormente por câmaras sensíveis no ultravioleta   a bordo de artefato espacial polar da NASA. Para Frank, esse bombardeio durante bilhões de anos pode ter formado os oceanos e até trazido carbono suficiente para dar inicio a vida na Terra. No caso de Campinas e Itapira, pedaços tão grandes de gelo que entraram  na alta atmosfera, submetidos a um desgaste muito grande, deveriam pesar no espaço várias toneladas ! Nesse particular, o evento foge aos padrões conhecidos  e ainda é motivo para melhores estudos e pesquisas.

Nelson Travnik é diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum, SP e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

OBSERVATÓRIO INICIA OBSERVAÇÕES DO PLANETA SATURNO


Com entrada gratuita, a partir deste sábado, o Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum, OAPES, órgão da Secretaria Municipal de Educação, SME, dá início à temporada de observações daquele que é conhecido como “a maravilha do sistema solar”, “a mais bela flor do jardim celeste” ou “o senhor dos anéis”.
Conhecido e reverenciado desde a remota antigüidade pelos babilônicos no século VII a. C., transformou-se em um dos deuses do panteão grego-romano como o ‘senhor do tempo’ representado por um velho empunhando uma foice. Na Roma Antiga realizavam-se as Saturnais, festa durante todo o mês de dezembro em honra a Saturno.



Quem já viu pôde conferir: por mais bonita que seja uma fotografia, nada substitui uma observação ao vivo através do telescópio. É uma experiência mágica que arranca exclamações e muitas vezes emociona. E são as crianças que mais se entusiasmam.
A observação detalhada do planeta requer instrumentos de porte médio e grandes. As efemérides astronômicas assinalam que em outubro irá ocorrer a inclinação máxima do sistema de anéis em relação à Terra ou seja, 26,9º, permitindo visualizar o hemisfério norte. A oportunidade, portanto, este ano é única! Em contrapartida, em março de 2025 irá acontecer o contrário: os anéis estarão sendo vistos de perfil, como se estivessem desaparecidos!

UM GIGANTE GASOSO
O segundo maior planeta do sistema solar é também o mais gasoso. Se a densidade da Terra em relação a água é de 5.56, a de Saturno é 0.67 (densidade da cortiça) donde se conclui que o planeta acha-se em estado ígneo-gasoso e com uma densidade tal que se colocado em um imenso
oceano ele boiaria! O gigante gasoso marca o limite dos planetas visível a olho nu, situado a uma distância média de 1.350.000.000 km. A essa distância a luz percorrendo 300.000 km/s, necessita 67 minutos a atingir nossa retina. É bom lembrar desse detalhe quando observar o planeta e recordar que um engenho espacial, a sonda espacial Cassini/Huygens
 ançada em 15/10/1997 somente chegou a Saturno em 1º/07/2004! Praticamente 7 anos! Após ter estudado o planeta por 13 anos, em 15 de setembro próximo deve ingressar na atmosfera do planeta encerrando uma missão coroada de êxitos.



SERVIÇO
Visto a olho nu a leste com uma tonalidade amarelada na constelação do Sagitário, ele poderá ser observado durante toda a noite e assim ficará visível por vários meses. A maior aproximação à Terra irá acontecer no próximo dia 15. Com entrada gratuita, o OAPES abre a visitação pública
todos os sábados das 18h30 ás 21h30. As observações de Saturno começam às 20h30, mas antes disso estará acontecendo observação do planeta Júpiter e objetos siderais notáveis como a “Caixa de Jóias” na constelação do Cruzeiro do Sul. Com amplo estacionamento, o OAPES está situado no km 3 da rodovia Fausto Santomauro, SP 127, que liga Piracicaba a Rio Claro.

Nelson Travnik, astrônomo diretor do OAPES e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

domingo, 4 de junho de 2017

Alô, tem alguém aí?



Nelson Travnik

Há 50 anos, vibrações estelares captadas por um radiotelescópio seriam obras de ETs. Muitos acreditaram ser um código para estabelecer contato com os terráqueos.

Em julho de 1967, a irlandesa Susan Jocelyn Bell Burnell (1943 - ) detectava acidentalmente com o radiotelescópio da Universidade de Cambridge, Inglaterra, um sinal muito regular – pulsos de radiação que se sucediam a uma freqüência de um por segundo . Em parceria com seu orientador, o radioastrônomo  inglês Antony Hewish (1924 - ) pensaram num primeiro instante tratar-se de um sinal emitido por uma forma de vida extraterrestre. Essa hipótese incendiou a mente de multidões : finalmente havíamos  recebido sinais dos nossos irmãos do espaço ! Os sinais foram atribuídos a “pequenos homens verdes” conhecidos pela sigla LGM (Little Green Men)  Uma outra hipótese entretanto, para explicar a regularidade precisa das emissões, era de que os sinais provinham de perturbações terrestres como o facho periódico de um farol que gira. Mas a regularidade dos pulsos demonstrou que se tratava de algo novo.

Não tardou muito para que Bell descobrisse que certos sinais pulsados de radio, chegavam com enorme precisão a cada 1,33728 segundos vindos da constelação de Vulpecula (Raposa). Outros sinais foram identificados por Hewish no centro da nebulosa do Caranguejo da constelação zodiacal do Touro. Identificado o objeto no coração da nebulosa, viu-se tratar de um novo tipo de estrela que recebeu o nome de pulsar, oriundo da contração de expressão inglesa “Pulsating Radio Sources” que equivale a ‘fonte de radio pulsante’. Coube a Thomas Gold (1920-2004) verificar que os pulsares eram estrelas de nêutrons em rotação. Identificados, eles emitem em todos os domínios dos comprimentos de onda das faixas de radio. A partir da descoberta, observações em outras faixas do espectro eletromagnético demonstrou que os pulsares podem ser observados não só em raios gama e raios X bem como em luz visível. Utilizando técnicas fotográficas ultra-rápidas, foi possível flagrar as pulsações do pulsar da nebulosa do Caranguejo. Desvendado o ‘mistério’ tornamos a ficar isolados no universo.   

O que são?

A existência de estrelas formadas basicamente de nêutrons, foi proposta em 1932 pelo físico russo Lev Davidovich Landau (1908-1968) pouco depois de se descobrir que essa partícula (juntamente com prótons e elétrons) formava o átomo. Esse modelo concebido pelo astrofísico Walter W. H. Baade (1893-1960) e pelo astrônomo suiço Fritz Zwicky (1898-1974), foi confirmado com a observação da supernova de Shelton SN 1987, em 1987, na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia satélite da nossa galáxia. Sua massa inicial estava compreendida entre 8 e 20 massas solares. Estrelas de nêutrons é, pois, a explosão final de uma estrela solitária de grande massa. Quando no momento da explosão, ela brilha com luminosidade de uma galáxia inteira! São objetos extremamente compactos e sua compacidade pode ser entendida pela densidade que é definida pela massa de um dado volume. A água por exemplo, tem densidade de um grama por centímetro cúbico. A densidade do ouro é 19 vezes maior. Qual seria a densidade em uma estrela de nêutrons ? Praticamente inimaginável. Elas tem densidade de 100 milhões de toneladas por centímetro cúbico (densidade do núcleo atômico) ! No espaço de uma colherzinha de chá por exemplo, seria algo de milhões de toneladas ! Com exceção dos buracos negros, é a maior compacidade conhecida. Isso pode ser entendido para uma estrela  centenas ou milhares de vezes maiores que o Sol e que, após a explosão, converte-se a uma esfera de 20 km de diâmetro. E como explicar a vertiginosa rotação da estrela? É o que em física é conhecido como conservação de momento angular. Vejamos : uma estrela comum tem velocidade de rotação de algumas dezenas de quilômetros por segundo. A rotação das estrelas de nêutrons é algo inimaginável – a cada pulso observado ela completa uma volta e essa volta se dá a centenas de pulsos por segundo ! A rotação mais rápida observada  emite 716 pulsos por segundo o que significa que ele gira mais de 700 vezes por segundo em torno do seu próprio eixo ! Mais  tarde os astrônomos constataram que a maioria das estrelas de nêutrons não são pulsares pois sua emissão de radio já terminou há muito tempo, pois sua vida média é de só 10 milhões de anos a não ser que seja uma binária (duas estrelas submetidas aos mesmos laços de gravitação). A estrela de nêutron, um pulsar, é pois a resultante de uma estrela massiva que ao explodir se transforma em uma bela e grandiosa nebulosa, contendo gases, poeira e outros elementos que irão contribuir para a formação de novas estrelas e com isto sistemas planetários similares ao nosso. Nascimento, vida, morte e renascimento. Eis a tônica que prevalece no Cosmo.

Nelson Travnik é astrônomo e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.